Milei entra em zona de desgaste: cai nas pesquisas e é superado por Kirchner e Bullrich
ArgentinaA inflação e os escândalos estão corroendo o apoio ao presidente argentino, vítima da chamada “maldição do terceiro ano”.
A situação começa a impactar o ânimo de Javier Milei, que, durante o período de descanso da Semana Santa, publicou cerca de mil postagens nas redes sociais atacando o jornalismo. Ele argumenta que seu governo é tratado de forma injusta e atribui isso a interesses ocultos: “95% dos jornalistas são delinquentes”.
Mais revelador foi o encerramento de seu discurso na Câmara de Comércio Argentino-Estadunidense (AmCham): “Vamos escrever a melhor página da história argentina. Nos acompanhem ou não. Se não nos acompanharem, voltamos para casa, não há problema. Todos podemos voltar a trabalhar no setor privado. Mas, se der certo, a Argentina terá dado um passo para ser grande novamente”.
A expressão “se der certo” gerou preocupação por representar a primeira fissura pública na confiança do líder ultraliberal. Milei indicou que, caso o governo fracasse, ele e sua equipe terão alternativas no setor privado, mas deixou dúvidas sobre o impacto para a população.
Os resultados econômicos também não correspondem às expectativas. A inflação acumula dez meses consecutivos de alta, distante da promessa de queda ainda neste ano. Embora indicadores apontem redução da pobreza, o humor social permanece negativo, com precarização do emprego e alto custo de vida.
Paralelamente, o governo enfrenta dois escândalos relevantes: o caso da criptomoeda $LIBRA, que envolve o presidente e sua irmã Karina, e a investigação por suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete, Manuel Adorni.
O nervosismo no Executivo também aparece em declarações enfáticas, como as do ministro da Economia, Luis Caputo, que afirmou que Milei é “um dos três líderes mundiais mais importantes” e que a Argentina viverá um dos melhores períodos econômicos das últimas décadas.
Apesar disso, pesquisas recentes indicam entre 60% e 70% de imagem negativa do presidente. Levantamento da Opina Argentina aponta 32% de intenção de voto para o peronismo e 31% para o grupo de Milei. Cristina Kirchner aparece com imagem positiva maior que a do atual presidente.
O governo também parece ter perdido conexão com eleitores moderados que o apoiaram em 2023. Declarações de Caputo, como a de que nunca comprou roupas na Argentina por serem caras, reforçam críticas em um contexto de fechamento de empresas e aumento das importações.
A narrativa contra a “casta política” também se enfraquece diante de controvérsias envolvendo Manuel Adorni, acusado de enriquecimento e de gastos elevados. Mesmo assim, ele segue no cargo, sustentado por Karina Milei, o que amplia o desgaste do governo.
Enquanto isso, Patricia Bullrich, que teve papel importante na eleição de Milei e hoje atua como porta-voz do governo no Senado, mantém postura discreta. Diante da possibilidade de Milei não disputar a reeleição, seu nome volta a ganhar relevância como alternativa dentro do campo governista.
EL MUNDO