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Entrevista de Carlos Siqueira à Carta Capital: O mea-culpa é imprescindível

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Foto: Humberto Pradera
Foto: Humberto Pradera

Em entrevista a revista carta capital, do Brasil, o presidente nacional do PSB Carlos Siqueira defende a necessidade de a esquerda fazer uma autocrítica e de se renovar.

Otimista, Siqueira acredita que depois disso, a esquerda voltará a ser capaz de oferecer um novo projeto para o país.

Leia a íntegra da entrevista:

O mea-culpa é imprescindível

Sem uma honesta autocrítica, a esquerda será incapaz de construir um novo projeto para o país, afirma Carlos Siqueira do PSB a André Barrocal

Segundo partido mais longevo do Brasil, precedido apenas pelos comunistas, o PSB acaba de completar 70 anos em meio a uma divisão interna. O racha pôde ser notado na votação da denúncia contra Michel Temer na Câmara. De seus 35 deputados, 22 votaram contra o presidente, 2 ausentaram-se e 11 ajudaram a livrar o peemedebista da condição de réu por corrupção passiva. Os pró-Temer são conservadores seduzidos pelos encantos do governo, um grupo que cresceu a partir de 2013, no período em que Eduardo Campos ampliou o leque de alianças para vitaminar sua candidatura presidencial. Hoje, esse pessoal começa a perder espaço.

Após romper com o PT no segundo mandato de Dilma Rousseff e ter apoiado abertamente o impeachment, o PSB busca reafirmar-se à esquerda e cerra fileiras na oposição às reformas neoliberais. Apesar do ambiente adverso, Carlos Siqueira, presidente da legenda socialista, em entrevista a André Barrocal, renova as esperanças na construção de um Âprojeto capaz de aglutinar as forças progressistas. Para tanto, seria indispensável uma profunda e honesta autocrítica. «Todos os partidos à esquerda estão desafiados a se renovar há muito tempo.»

O que esperar de Temer após sua salvação na Câmara?

Poucas vezes o Congresso deu as costas para a sociedade dessa maneira, diante de denúncias tão graves. Parece-me significativo que não tenha havido pressão das ruas. Os setores que pediram o impeachment e se mostravam tão indignados com a corrupção, agora ficam recolhidos. Tampouco os setores populares tiveram capacidade de mobilização. Por outro lado, seria trocar seis por meia dúzia. Rodrigo Maia não iria rever o programa ultraliberal.

A ascensão do conservadorismo também é consequência da não politização da sociedade nos governos do PT?

Houve uma espécie de ilusão de classe. Pensou-se que os grandes interesses plantados no Brasil, internacionais ou nacionais, estariam apoiando esse governo ad aeternum. Apoiavam porque não houve ousadia para fazer ao menos uma reforma estrutural. Uma das Âprioridades deveria ser a reforma política. Em vez disso, tratou-se de fazer uma composição, carregando os maus Âoptou por uma aliança preferencial com o PMDB, cujo projeto é estar no poder sempre, não importa qual seja o governo.

Na votação que salvou Temer, a maioria do PSB votou a favor da denúncia, mas um terço da bancada ficou do lado dele.

O PSB fez 70 anos agora. Em várias ocasiões, o partido sofreu a ameaça de perda da sua identidade. Vivemos um momento desses. Temos alguns parlamentares pelos quais tenho grande respeito pelas suas convicções liberais, mas sempre digo a eles: essas convicções jamais se transformarão no programa do PSB.

Dá para imaginar que haverá até o fim da janela de filiação partidária algum tipo de depuração no partido?

A depuração acontece pela resistência de militantes e de setores da própria direção. Não é verdade que o partido está dividido. O que está dividido é a bancada, uma parte dela. O PSB, por unanimidade, em reunião com quórum qualificado, na presença de governadores, deputados e senadores, propôs a renúncia de Temer, Âassinou um pedido de impeachment contra ele e adotou a bandeira das diretas.

Por hora, a esquerda só se une na resistência ao governo Temer. Qual é o passo seguinte, uma união em torno de um projeto?

Depois de o partido mais importante de esquerda ter chegado ao poder, é preciso fazer uma avaliação honesta e uma autocrítica sobre esse período. Todos os partidos à esquerda estão desafiados a se renovar há muito tempo. Desde o fim do socialismo real, isso não foi feito de maneira adequada. A esquerda precisa fazer um estudo mais profundo sobre a nova realidade internacional, a fase que vive o capitalismo, de profunda acumulação de riqueza e que promove ideologicamente o conservadorismo. Por outro lado, a resistência já é alguma coisa. Acumulam-se forças. Sou otimista. Nos próximos anos, a esquerda pode ter novamente o seu projeto de País.

Nos próximos anos? Seu otimismo não começa em 2018 ?

Temos um ambiente muito adverso às forças progressistas. Não quer dizer que isso não possa mudar. O resultado dessas políticas liberal-conservadoras é tão desastroso que pode criar um ambiente Âinverso também. Não sei, porém, se isso ocorrerá até 2018. Acho que será necessário um esforço maior de pensar o País.

A ideia de parlamentarismo está de volta. Qual a sua opinião sobre isso?

É um sistema que pode facilitar a superação de crises. Creio, porém, que no atual momento viria de uma maneira um tanto oportunista. Fora o Lula, não há outro líder, nem à esquerda nem à direita. A ausência de lideranças fortes no plano nacional leva a direita a querer ter o controle através do parlamentarismo.

Não seria uma ditadura do Centrão?

O Centrão é a base sólida do governo Temer, apesar de haver uma discordância do PSDB em aspectos secundários. ÂÉ o poder pelo poder. Você não o vê discutindo os problemas do País com a população. Esse grupo discute apenas eleições e poder. Para nós, da esquerda, sem transformações, sem desenvolver a indústria, sem gerar emprego, sem melhorar a vida das pessoas, não faz sentido o poder. Para os conservadores é a manutenção do status quo.

Como o senhor avalia a atual política econômica?

É a política econômica mais ortodoxa e mais conservadora dos últimos 30 anos. Não se discutem mais os problemas do Brasil. O grande debate é se Temer termina ou não o mandato, se a equipe econômica se mantém ou não. É uma espécie de ditadura do capital, na verdade. Nem os militares tiveram coragem de propor tamanho desmonte da legislação trabalhista.

Apesar disso, as manifestações populares, quando ocorrem, resumem-se a um grupo específico da sociedade.

Há certa letargia na sociedade, que não compreende o que está acontecendo. Apenas setores específicos, beneficiados diretamente pelos governos progressistas, é que se mobilizam, mas nem tanto. Pior: a sociedade não enxerga uma perspectiva para o curto prazo. Talvez um pouco mais na frente, com os resultados desastrosos da política econômica e social deste governo, as coisas ficarão mais claras, porque não poderão dar bons resultados.

Então é bom Temer «sangrar» até 2018 ?

Não diria que é positivo, mas a permanência dele pode ser pedagógica, para que a população entenda o que está acontecendo. Mesmo com os erros da esquerda, em especial do PT, mas também dos outros, de todo o sistema político, as diferenças existem. Gosto de citar Ariano Suassuna: quando um sujeito diz que não existe mais esquerda e direita, você só pode ter uma certeza: essa pessoa é de direita. Se não existissem mais classes sociais, estaríamos no paraíso.

*Entrevista publicada na edição de nº 965 da revista Carta Capital.

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