Mesmo em guerra com a Ucrânia, Putin não vai esquecer a América Latina. Entenda
NoticiasEm um momento em que as relações entre Brasil e Russia parecem mais próximas do que nunca um provérbio famoso do país europeu define a posição do presidente russo, Vladimir Putin, com os líderes da América Latina. “В чужой монастырь со своим уставом не ходят”. Traduzo: “Ninguém passeia pelo convento dos outros com suas próprias regras”, ou dance conforme a música, no bom português. O encontro entre o presidente Jair Bolsonaro e o líder russo não foi a primeira investida recente dele por aqui, e nem será a última. Este mês ele recebeu a visita do esquerdista Alberto Fernández, presidente da Argentina. E não para por aí. Além das parcerias já conhecidas com Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela, Putin planeja se aproximar dos presidentes do Chile, Colômbia e Peru. Tudo isso adaptado aos anseios de seus potenciais novos aliados latinos e já pensando no efeito que a guerra deflagrada contra Ucrânia na madrugada de quinta-feira (24) poderia trazer.
A análise é do diretor do Oxford Centre for the Analysis of Resource-Rich Economies, Tony Venables. Em uma palestra sobre o andamento da economia mundial e o papel da Rússia no mercado internacional, a América Latina ganhou destaque. Segundo ele, as aproximações conhecidas com Cuba e Venezuela, que envolvem a vacina contra a Covid, no caso de Cuba e extração de petróleo no caso da Venezuela, devem se expandir nos próximos anos. “À medida que a região periférica da América Latina se levanta contra a figura imponente dos Estados Unidos, abre-se espaço para novos parceiros”, disse.
Mas o pulo do gato está entre países que não se relacionavam tão abertamente com os russos, como Brasil e Argentina. “O curioso da agenda de Putin em fevereiro é que ele encontrou dois presidentes com perfis completamente diferentes em duas semanas e teve a mesma receptividade”, disse Venables. Argentina, Bolívia, Cuba e Paraguai, por exemplo, receberam carregamentos da vacina Sputnik V.
Agora, com a invasão russa à Ucrânia, o cenário muda um pouco. Stephen Broadberry, professor de história da economia da Nuffield College, afirma que Putin terá que manter firme ao seu lado os aliados e ficará atento ao movimento da China e cobrando neutralidade de países, como o Brasil e a Argentina, que o visitaram. “E essa será a estratégia para o mundo pós-pandemia.” A decisão de Putin, de iniciar uma guerra contra a Ucrânia não foi pensada de uma hora para outra e, como diz outro ditado russo. “Семь раз отмерь, один раз отрежь” (meça sete vezes, corte uma vez, na tradução livre).
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