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Uruguai, um oásis de civilidade

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Jocy de Oliveira
Compositora
* Artigo publicado no Jornal do Brasil, no dia 26 de março de 2018. Para acessá-lo, clique aqui.

 

Em nosso continente, logo abaixo do Rio Grande do Sul, fica um oásis de civilidade: o Uruguai. Aquele pequeno país tem mantido um governo socialista há mais de quinze anos que oferece retorno aos impostos pagos pelo povo com sistema de saúde gratuito e eficiente, escolas públicas de boa qualidade, bom transporte igualmente público que resulta num trânsito fácil e respeitoso ao pedestre. Não há mendicância nem analfabetismo. A segurança é total e o cidadão uruguaio ainda paga menos imposto do que o brasileiro.

É inacreditável como um país pequeno se mantém íntegro apesar de colado a um gigante adormecido que infelizmente despertou para violência, o abandono da cultura, da educação e da saúde. Nosso vizinho, com seus três milhões de habitantes, até parece um pedaço da Escandinávia no hemisfério sul.

O Uruguai descriminalizou as drogas, o jogo, legalizou o aborto. Suas leis demonstram respeito e dignidade de toda ordem a questões de gênero e foi o primeiro país do mundo incluir a eutanásia tendo em seu código penal já em 1934. Enfim, um socialismo democrático que respeita a liberdade do indivíduo com uma visão humanística.

Muitos dirão: trata-se de um país pequeno e homogêneo. Perguntei por lá: como vocês conseguiram um estado civilizado como esse, sendo que países pequenos na América Latina estão em situação calamitosa? A resposta foi sempre a mesma: a existência de um governo para o povo e sem corrupção.

Descobri tudo isso no início do mês. Fui a Montevidéu para a apresentação de minhas peças Who cares if she cries para soprano e orquestra,  com Gabriela Geluda, e Esferas Rítmicas, com o argentino Brain Caballero (bandoneon) pela Filarmônica de Montevidéu, regida pela maestrina brasileira Lígia Amadio – regente titular e diretora artística da orquestra.

Foi uma comemoração do Dia da Mulher, num concerto que reunia peças de quatro compositoras do Uruguai, da Argentina e do Brasil. As apresentações foram no Teatro Solis – o mais antigo das Américas, construído em 1856 e impecavelmente mantido pela Prefeitura da capital. No Uruguai, a cultura é patrocinada pelo estado e, só em Montevidéu, há dois grandes teatros, cada um com sua excelente orquestra sinfônica: além do Solis – gerenciado pela Prefeitura – há o Sodré, do governo federal. Estes dois centros culturais comportam diferentes salas que programam música, dança, e teatro.

Foi gratificante encontrar a nossa maestrina Lígia Amadio considerada, respeitada e admirada pelo seu trabalho e dedicação à Filarmônica, com total apoio do poder público e da audiência, com casas cheias mesmo em programas não convencionais.

O programa artístico desse concerto levantou a questão do gênero na música clássica, uma das áreas em que a situação de desigualdade é extremamente sensível. Entre os compositores agendados na programação mundial de música clássica, somente 2% são de mulheres; e só existem 4% de mulheres entre os regentes. E ainda se discute a condição da mulher compositora. É uma “condição”! Organizam-se festivais, simpósios, concertos sobre a mulher compositora como este em Montevidéu.

Nesse universo masculino, a mulher continua a ser minoria, quase nos mesmos moldes do passado.

E por quê? Provavelmente porque são áreas masculinas determinantes em que a mulher não tem o direito de fala, não manifesta suas escolhas estéticas, sua linguagem, seus conceitos e pensamento. Ainda há muito a fazer.

Mas foi uma viagem inspiradora a esse oásis tão próximo. Que lição para nós, à beira de uma eleição e sem nem mesmo saber quem são os candidatos!