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Análise: Bolívia mostra que a América Latina não é um bloco de pensamento único neoliberal

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Rodrigo Gallo
Cientista político
*Análise originalmente publicada no Rede Brasil Atual, no dia 3 de dezembro de 2017

 

Foto: Senado Plurinacional/Gob/Bolivia
Foto: Senado Plurinacional/Gob/Bolivia

“A Bolívia hoje é um país diferente do que era quando Evo Morales assumiu. Não que seja um país perfeito, mas houve investimentos em questões sociais importantes, principalmente em relação à representatividade de populações nativas.” A avaliação é do professor de política internacional da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Rodrigo Gallo. O cientista político conversou com a RBA sobre a decisão da Justiça boliviana de autorizar Evo a disputar a reeleição pela quarta vez.

À frente do país desde 2006, Evo já conseguiu três reeleições e pode caminhar para mais uma. Tal longevidade na presidência provoca controvérsias no campo político. “O Evo tem apoio popular e, até por isso, tenta se manter no cargo. Essas tentativas não vão desagradar boa parte da população. Agora, a despeito disso, é muito complicado para um Estado democrático que um presidente tenha a autorização legal para disputar muitas eleições seguidas”, afirma Gallo.

A decisão da Justiça boliviana partiu do Tribunal Constitucional Plurinacional, a Suprema corte do país, após pedido da bancada de seu partido, o Movimento ao Socialismo (MAS), no Senado. A medida também impacta em outros cargos eletivos, como deputados e governadores. “Evo não está apenas se perpetuando no poder, essa é uma particularidade, mas ele segue com apoio de camadas importantes da população. Isso mostra que a Bolívia, apesar da crise econômica, vem seguindo um mesmo modelo de agenda social”, disse.

Para o professor, o ideal seria “Evo trabalhar em um sucessor, já que tem base para isso. Ele deveria apoiar um candidato ligado democraticamente ao mesmo tipo de agenda”. Entretanto, a manutenção de um projeto social pode ser importante para o desenvolvimento regional, como explica o cientista político. “De uma forma geral, seria muito ruim se todo o continente se alinhasse a um tipo de ideia só, perspectivas distintas são importantes. Em um momento em que se pensa em reformas neoliberais na Argentina e no Brasil, é interessante ter uma Bolívia por perto.”

“Todos estamos na América do Sul. Com a Bolívia e o Equador temos a oportunidade de olhar para outros tipos de governos possíveis, e que um governo pode ser bem-sucedido trabalhando com questões sociais. É um farol importante. A resistência da agenda social mostra que a América Latina não é apenas um bloco de pensamento único neoliberalizante neste momento (…) Um contexto de crise, de um modo geral, faz com que o pêndulo político vire para um lado mais conservador neoliberal. Isso tem acontecido, mas a Bolívia parece ser um foco de resistência”, analisa.

Legalidade

A oposição boliviana acusa Evo de atentar contra a Constituição, visto que, no início de 2016, a população local votou em um referendo (o sufrágio no país é obrigatório) sobre a reeleição. O resultado foi apertado: 48,7% favoráveis e 51,3% contrários, uma diferença de 135 mil votos em um país de mais de dez milhões de habitantes. Por sua vez, a base de Evo não vê ilegalidades no processo, apesar de o presidente ter revelado “surpresa” com o resultado.

Gallo discorda de críticos que enxergam o país como um modelo ditatorial, apesar de não achar as sucessivas reeleições algo “saudável”. “Evo assumiu a presidência em 2006. Ele pode chegar a duas décadas. Não estou dizendo que isso configure uma ditadura, porque não é o caso. Ele não está tomando o poder (…) É possível fazer a análise de que ele utiliza de aprovação popular para legitimar mudanças que acabam o mantendo no poder. Mas democraticamente falando, ele vai disputar uma eleição e pode ganhar”, disse.

“Podemos dizer que essa manobra é legal do ponto de vista constitucional”, afirma o cientista político. “Se pararmos para analisar o que é uma lei, podemos ver que uma Constituição nunca é perfeita, sempre tem brechas que são passíveis de interpretações distintas. Quando a base de Evo pede para uma esfera judicial fazer uma análise interpretativa ela está, de certa forma, manobrando”, afirma.

Renovação

A força de Evo em seu país, bem como seu legado, pode impactar negativamente na formação de novas lideranças, de acordo com o professor. “Regionalmente, na Bolívia, a coisa tem funcionado de outra forma. O país tem feito novas lideranças, mas nenhuma delas tem força para fazer oposição a Evo, que tem sido a cara do país, e mesmo pessoas ligadas a ele podem estar ofuscadas pela forma de governo.”

Soma-se a essa questão a característica do eleitorado latino-americano de personalizar o voto. “Talvez o problema boliviano seja a falta de renovação no quadro político. O fato de Evo estar há tanto tempo no poder pode ter fragilizado as lideranças majoritárias (…) Podemos dizer que personalizamos demais o voto.”

Conjuntura global

De acordo com pesquisa do instituto local Equipos Mori, realizada em agosto do ano passado, Evo possui aprovação de 77% da população . Mesmo assim, o referendo sobre a reeleição revelou uma sociedade mais polarizada do que o esperado em relação à condução política boliviana. Para Gallo, tal acirramento das posições é um movimento global. “Talvez, no sistema internacional, estejamos vivendo um momento que, por uma soma de fatores – como a crise econômica e seus desmembramentos, a crise dos refugiados, o contato com novas populações, grupos como o Estado Islâmico voltando os olhos para o território europeu –, as populações se polarizem.”

“O eleitor está em busca de soluções. O cidadão passa a olhar para a política com uma perspectiva de tentar encontrar quem vai salvá-lo e resolver certos problemas. Entendemos que, em momentos de crescimento, é mais comum que várias opções sejam colocadas na mesa. Já em um cenário de crise, procuramos salvação e esperança. Então, é normal que a situação encontre extremos, porque somos puxados para órbitas de dois ou três tipos de discursos que condensem várias ideias”, disse.

Imperialismo

O governo de Evo classifica as investidas da oposição contra seu governo como incabíveis e os acusa de promoverem “uma guerra suja” com apoio de forças imperialistas. Gallo afirma que a influência externa não pode ser descartada.

“Tal população representa mercado consumidor. Claro que os norte-americanos olham com interesse para cá. Então, o mundo corporativo tenta fazer pressão por meio de governos para que, estruturalmente, adotemos mudanças para que o mercado deles fique mais lucrativo. O mesmo acontece com países europeus que fazem isso até hoje. A região desperta interesse privado. O difícil é mensurar o quanto essa influência é objetiva ou subjetiva, o quanto eles movem as peças para promoverem mudanças. Mas a influência é inegável, tanto aqui quanto no Oriente Médio.”